sábado, setembro 21, 2019
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Estudantes que participam de ocupações querem mais espaço nas decisões

Os jovens reivindicam um ensino mais plural e coletivo

Por Mariana Tokarnia
Da Agência Brasil

Uma escola mais plural, com melhor infraestrutura, professores qualificados e maior participação nas decisões são algumas das respostas dadas por estudantes que participaram de ocupações de escolas em vários estados do país à pergunta de que escola desejam. Nesta semana, um grupo de estudantes do Espírito Santo, Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Goiás e do Ceará foram a Brasília, a convite da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, chamar a atenção do Congresso Nacional e do governo federal para o movimento dos secundaristas e pedir melhorias no setor.

“As ocupações deixaram claro que o que a gente quer é uma escola que debata gênero, uma escola mais plural. E onde seja importante o cuidado com o ambiente escolar. Hoje não há dinheiro para as escolas, se quer reformar um banheiro, não tem dinheiro”, diz Luiz Felipe Costa, 19 anos, estudante do Instituto Federal do Espírito Santo. “Se formos fazer uma média, vamos achar que 90% das escolas públicas são modelos de prisão grande, com dois, três portões para chegar à sala de aula. Esse ambiente não nos comporta. A escola hoje, infelizmente, não contempla os estudantes”.

As ocupações, que até o ano passado eram inéditas no Brasil, mas já conhecidas de países vizinhos, como o Chile – em 2006, na chamada Revolução dos Pinguins, contou com a adesão de mais de 600 mil estudantes – ganharam força como estratégia dos estudantes secundaristas. Começaram em São Paulo, contra o processo de reorganização proposto pelo governo do estado, ocorreram em Goiás, contra a proposta do governo estadual de terceirização da admnistração das escolas a organizações sociais (OSs), e no Espírito Santo, contra a reorganização do ensino.

Ocorrem ainda no Rio Grande do Sul, onde os estudantes pedem melhor infraestrutura, em Mato Grosso, contra a proposta de parcerias público-privadas (PPPs) nas escolas, além do Rio de Janeiro e Ceará, onde os estudantes apoiam os professores e pedem melhores condições de ensino.

“Os alunos estão indignados, querem reivindicar. As escolas estão sem reforma, há escola que nem banheiro tem, há diretor que está alugando banheiro por R$ 4 mil por mês. Tudo isso prejudica o aprendizado”, diz Daniel Vítor Pereira de Abreu, 21 anos, diretor regional da União Nacional dos Estudantes, que participa das ocupações em Mato Grosso. Ele conversou com a Agência Brasil por telefone. No estado, de acordo com os estudantes, são 24 escolas ocupadas.

Aprendizado

Os estudantes relatam que aprenderam muito participando das ocupações. Em todos os estados, a programação incluía aulas públicas, limpeza da escola, debates e eventos culturais. “A ocupação transformou os estudantes. Aquela gurizada que não queria nada com nada, agora é que está sentada com professores tirando dúvidas, está limpando o banheiro, fazendo a janta”, relata Júllia Carolina da Silva Ferreira, 18 anos, estudante da Escola Estadual Professor Apolinário Alves dos Santos, a primeira ocupada em Caxias do Sul (RS).

Ela conta que estudantes que tinham pichado a escola, agora estavam limpando as paredes. “Estudantes que fizeram grafite nas paredes, estavam limpando e dizendo que não fariam isso nunca mais porque viram o quanto é difícil limpar. A escola foi ocupada e quando for desocupada, vai ser totalmente diferente”, diz Júlia.

“Na ocupação, eu me impressionei, os alunos tinham voz”, relata o estudante Lincoln Oliver, de 18 anos, que participou da ocupação do Colégio Estadual Heitor Lira, no Rio de Janeiro. “Eu aprendi muito de direito, política, filosofia, sociologia, aprendi tanta coisa, a ter uma visão maior do que é o país, a sociedade, o governo. Eu acho que a educação é o básico e deve ser o meio pelo qual qualquer tipo de pessoa tenha uma formação adequada e infelizmente não é o que acontece hoje”.

Relação com a comunidade

“As ocupações mostram que no Brasil está havendo uma articulação de vários segmentos contra a incapacidade do Estado de prestar um serviço como deveria ser”, avalia o cientista político e sociólogo da Universidade de Brasília Antônio Testa.

Segundo Testa, essa insatisfação começou a ganhar as ruas na jornada de protestos de junho de 2013. “Os movimentos mostravam que a população estava insatisfeita com transporte, educação e segurança. A sociedade está se mobilizando, tem internet para ajudar e está mostrando que consegue pressionar o Poder Público para as suas razões”.

De acordo com ele, as novas formas de manifestação também exigem dos governos novas formas de negociação. Os movimentos são pulverizados, não têm uma única liderança. Na maioria dos estados, os estudantes pedem que as negociações ocorram com pelo menos um representante de cada escola ocupada. “O estado tem que mudar a estratégia, é sempre reativo, não tem capacidade de se antecipar, reage ao processo de pressão e depois fica refém”, diz Testa.

Além das jornadas de 2013

Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, as ocupações “são a melhor novidade no debate público brasileiro”. Segundo ele, os estudantes deram um passo além das jornadas de junho.

“Em 2013, havia mais gente mobilizada, mas tinha um ponto que negava as organizações e as instituições e fazia sentido ali, mas quando se nega inclusive as organizações que podem ser parceiras, isso dificulta o processo. As ocupações não fecham as portas para ninguém. São os secundaristas que têm autonomia e que coordenam o movimento. Acredito que a maturidade política vem sendo estabelecida e uma nova forma de exercício de liderança”, analisa.

Segundo ele, mulheres e a população LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros] têm exercido protagonismo nesse processo, o que é positivo. “Eles, de fato, mudam o dia a dia na escola, os estudantes se apropriam do direito à educação. Percebe-se uma liderança apolítica, mais horizontal, menos discursiva e mais pautada no exemplo”, diz Cara.

Em relação à atuação dos governos, Daniel Cara considera que eles têm agido mal. “Não compreendem essas ocupações e não percebem que significam uma oportunidade de fazer uma discussão qualitativa da educação e de fazer com que o jovem se responsabilize e ajude a desenvolver a gestão democrática”, afirma.

Estados

O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Eduardo Deschamps, diz que os secretários veem a situação com apreensão. “Em primeiro lugar, pelos prejuízos às estudantes por causa das dificuldades de cumprir os 200 dias letivos dentro do ano. Nesse caso, os prejuízos aos estudantes, em especial aos do ensino médio, podem vir a ser irreparáveis. Em segundo lugar, pelas dificuldades de negociação com o grupo de alunos que ocupam as unidades escolares pois, segundo relato dos secretários, é difícil encontrar uma pauta clara para atendimento e discussão, além de, em alguns casos, a liderança ser difusa e, ao contrário do que prega, se negar ao diálogo”.

Deschamps diz que todos os secretários querem garantir a melhor educação possível aos estudantes. “Porém as soluções são complexas. Temos observado a ampliação de espaços para que os estudantes e suas lideranças possam participar do processo de definição das ações educacionais em cada estado. As novas formas de comunicação, por meio das mídias sociais, vêm se transformando em ferramentas bem interessantes de interlocução com os estudantes, como nunca antes foi possível”.

Segundo o secretário, é necessário que haja espaços abertos de diálogo de ambos os lados. “Os problemas da educação só serão resolvidos com um grande pacto nacional e não por meio de um ambiente de conflito permanente”.

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