domingo, maio 26, 2019
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Vivendo à beira das BRs, etnia é vítima de ameaças e emboscadas frequentes

Por ANDRÉ BORGES E LEONENCIO NOSSA

Sentença de ministra do Supremo diz que há 70 anos não existe índio em área de disputa secular com ruralistas

Os tratores se movimentam entre a plantação e um pedaço de mata na Fazenda Brasília do Sul, em Juti, a 320 km de Campo Grande (MS). A poucos metros dali, uma família guarani-caiová, acampada num canto da propriedade, tenta se concentrar nas orações diante de uma cova improvisada. Duas semanas antes, Virgílio Veron, de 47 anos, cometeu suicídio ao saber que a Justiça havia determinado nova retirada dos índios.

A possível chegada de tropas para despejar as famílias deixou a comunidade em estado de tensão. Naqueles dias, Virgílio não escondia o temor. “Ele não conseguia dormir ou comer. Deixou seis filhos, não suportou”, diz Valdelice Veron, sua prima.

Mulheres da aldeia já se mataram nessas terras, porque sofreram violência muito ruim (sexual) nas mãos dos pistoleiros”

Em barracos de lona e papelão, os guaranis-caiovás observam os tratores, à espreita. O Estado presenciou o momento em que dois homens armados passaram xingando, de moto, pelo acampamento. Valdelice diz que as agressões são constantes. Os tiros, também.

A área conhecida como Taquara foi reocupada pelos índios em 13 de janeiro. Não foi uma data qualquer. O dia escolhido homenageava o cacique Marcos Veron, de 73 anos, pai de Valdelice que lutou por décadas para reaver a terra da aldeia. Em 2003, foi morto após ser agredido a socos, pontapés e coronhadas de espingarda. Teve traumatismo craniano. Após o assassinato de Veron, quatro filhos morreram em conflitos.

Como outros 600 índios da aldeia, a família Veron passou os últimos anos em barracos de lona, à margem de estradas. “Mataram meu pai e até hoje não houve justiça. Por isso viemos para cá. Não vamos mais sair daqui”, avisa Valdelice.

Ela tinha 24 anos quando perdeu o pai. Hoje, é a voz mais influente entre os guaranis-caiovás para impedir a matança em curso no Mato Grosso do Sul, Estado que acumula mais da metade dos assassinatos de índios ocorridos no País. De 1996 a 2016, foram 957 indígenas assassinados no Brasil, por vários motivos. Pelo menos 209 delas foram por armas de fogo, em conflitos por terra.

A situação no campo tende a ficar mais sangrenta. Ruralistas têm pressionado o governo a liberar a venda de terra para estrangeiros. Querem suspender um parecer da Advocacia-Geral da União que proíbe o avanço internacional. Num cenário onde não se respeita as terras públicas, a abertura deve provocar aumento da especulação de preços e ainda mais tensão sobre os territórios indígenas.

No dia 14 de junho, a 38 km do acampamento dos Veron, pistoleiros mataram o índígena Cloudione Rodrigues Souza, de 26 anos, em Caarapó. Outros seis foram baleados. Josiel Benites, de 12 anos, foi alvejado na barriga. Eles sobreviveram. Três dias depois, outros três guaranis foram alvejados.

“Nunca fomos tratados como gente. Nos chamam de minoria, mas somos muitos. Para vocês, quando alguém morre, acabou. Nós estamos aqui, com nossos antepassados. Eles estão com a gente”, diz Valdelice.

Derrota no STF. Ela promete seguir na luta pelos 9,7 mil hectares em Juti, área que foi estudada pela Funai há mais de uma década. Em 2007, o Ministério Público cobrou demarcação da área, mas o processo não avançou. Em 2014, o Supremo Tribunal Federal aceitou mandado de segurança do ruralista Avelino Antonio Donatti e derrubou a posse imemorial (permanente) para os índios. A favor de Donatti, a ministra Cármen Lúcia argumentou que a fazenda foi adquirida em 1998 e “há mais de 70 anos não existe comunidade indígena na região”. A ministra baseou seu voto num laudo antropológico controverso. O estudo minimiza a expulsão dos guaranis-caiovás em 1940 e tenta sustentar que “apenas alguns” teriam permanecido na área, no trabalho de “peões”. Embora tenha admitido um “desassossego” diante da dificuldade de atender aos anseios da comunidade indígena, “há muito desapossada de suas terras, muitas vezes agravada em seus direitos fundamentais e na dignidade da pessoa humana”, Carmén Lúcia aceitou o pedido.

Valdelice é a expressão real do desassossego. A polícia pode chegar a qualquer hora e sua família voltar para a beira da estrada. “Quando a ministra Carmem Lúcia suspendeu a demarcação, ela assinou a sentença de morte do guarani-caiová, assinou a sentença de morte da família Veron.”

Leia mais em Estadão

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